Reusando vídeos nas aulas de língua segunda ambiental e estrangeira: Redubbing e lip-synching

O método Planeta deAgostini em casette para o italiano.

O método Planeta deAgostini em casette para o italiano.

Como é bem sabido, o âmbito da didática das línguas foi pioneiro na utilização de conteúdos audiovisuais. Com efeito, a chegada do audiovisual às aulas de língua estrangeira nas décadas de 1950 e 60 envolveu mesmo importantes mudanças metodológicas, hoje estudadas em geral como metodologias audiovisuais ou estruturo-globais (SGAV). Entre os numerosos métodos audiovisuais que foram lançados ao mercado, primeiro em vinil, depois em cassete e finalmente em CD, encontram-se os cursos da editorial catalã Planeta deAgostini, que se tornaram muito populares na Espanha na década de 1980 e ainda de 90. Acho que na memória de toda uma geração ficou gravada aquela frase de l’italiano è molto facile e divertente. Aquele jeito de ensinar línguas segundas, centrado na repetição de estruturas gramaticais, ainda tem hoje, junto com o do método da gramática-tradução, um grande peso nas aulas. Devemos às metodologias audiovisuais aquelas atividades de preenchimento de espaços em branco ou de passar frases afirmativas a frases negativas, mas também aplicações agora bem populares como Duolingo.

Nos anos 80 o VHS generalizou o uso do vídeo nas aulas e trouxe consigo as metodologias comunicativas. O importante passou a ser o contexto comunicativo, lidar linguísticamente com situações, e aí as cenas de vídeo tornaram-se fundamentais. Pessoalmente, uso muito nas aulas os vídeos de métodos comunicativos dos anos 90 e 2000 como Reflets, disponíveis hoje na rede. YouTube, os computadores e os videoprojetores logo tornaram habitual a utilização nas aulas de vídeos não pedagogizados, les vidéos authentiques como dizemos em didática FLE. De repente, docentes e aprendentes tivemos ao nosso dispor todas as notícias de telejornais, debates, concursos… todo tipo de conteúdos e imensas possibilidades de utilização. Assim, a variedade e a disponibilidade de material audiovisual para ensinar ou aprender línguas é tanta hoje que é difícil acreditar que ainda em muitas aulas a utilização pedagógica do vídeo seja uma prática secundária ou mesmo testemunhal.

Colaborar para reinterpretar historias

Agora, no meio de tudo isto, temos, de um lado, os novos dispositivos móveis (telefones e tablets), a web 2.0 e o início da revolução do M-Learning e, doutro lado, a adoção de práticas pedagógicas centradas na aprendizagem ativa e colaborativa, a metodologia acional. A ênfase é dada hoje, ao menos nas correntes pedagógicas atuais, aos aprendentes e à suas experiências de aprendizagem no quadro de tarefas ou projetos. Em geral, estes projetos visam a produção colaborativa de conteúdo envolvendo ao memso tempo a utilização da língua estrangeira. Em suma, trata-se de aprender fazendo em grupo alguma cousa significativa e motivante. Hoje parece já evidente que a produção de conteúdos multimédia com dispositivos móveis também se vai tornar uma prática habitual nas aulas de línguas segundas, ao menos com nativos digitais adultos.

No que respeita à utilização do vídeo, este continua a ser usado nomeadamente para trabalhar competências e estratégias de compreensão oral. Porém, começa a se introduzir também o seu uso para melhorar capacidades relativas à produção, à interação e à mediação, isto é, para falar, conversar ou reinterpretar em língua segunda. Assim, conversando com colegas do ensino secundário nas Journées pédagogiques da APFG ou em grupos de redes sociais parece que a elaboração de vídeos grupais já faz parte de numerosos projetos no ensino secundário. Normalmente, estes vídeos são originais e os aprendentes encarregaram-se de todo o processo de produção. Sem dúvida, este tipo de práticas apresentam um importante componente de storytelling (narrativização), que se tem revelado beneficioso para a aprendizagem de línguas. Mas para além da criação original, internet e os dispositivos móveis oferecem-nos também a possibilidade de reusar vídeos existentes para contarmos novas histórias e melhorarmos as capacidades comunicativas. Vou mencionar aqui duas práticas populares em internet que chamárom a minha atenção e que, na minha opinião, tenhem um alto potencial para as aulas de línguas segundas ligado nomeadamente ao seu caráter performativo ou teatral: o redubbing (redublagem) e o lip-synching (sincronia labial).

Redubbing ou redublagem

Como o próprio nome indica, a redublagem consiste em redublar a cena de um filme, uma série ou spot publicitário mudando o roteiro ou guião inicial. Estas reutilizações tenhem normalmente um caráter humorístico ou satírico e são muito populares na rede. O seu principal aspeto viral é o fato de estas produções achegarem uma reinterpretação do significado do vídeo original, atribuindo novas caraterísticas às personagens e colocando-as num novo contexto. Na aula de língua segunda, seriam então os aprendentes quem trocariam o áudio do vídeo, elaborariam um novo roteiro e redublariam o vídeo na língua alvo. Esta atividade parece mobilizar todas as capacidades linguísticas (receção, produção, interação e mediação) a nível oral e escrito. Aliás, também se poderiam trabalhar capacidades de tipo sociolinguístico e pragmático. Deixo aqui um exemplo bem conhecido na Galiza realizado polo utilizador Cachocentollo a partir de uma cena do filme Rebecca do A. Hitchcock.

Lip-synching ou sincronia labial

Com benefícios similares, a sincronia labial parte do audio de uma cena vídeo que os utilizadores usam para gravar um novo vídeo fazendo playback com os diálogos. Aplicações como Dubsmash estão a popularizar este tipo de remisturas através da sua difusão nas redes sociais também com uma finalidade humorística. Numa atividade ou projeto deste tipo, os aprendentes deverão, portanto, amoldar os seus movimentos labiais ao áudio do vídeo original, mas poderão reinterpretar a cena com um novo cenário, vestiário ou situação. O exemplo a seguir foi elaborado polo utilizador Idan Matalon a partir de uma conhecida cena da novela Valeria (2008) que se tornou vital há uns anos.

Quem sabe disto?

Fica claro que o professorado de línguas tem (temos!) muito a aprender de especialistas em comunicação digital. Penso, por exemplo, em certos projetos que estão a desenvolver na Navalla Suíza, em Santiago de Compostela, ou, já mais focados na educação, em Gingko em Vigo. Talvez era bom convidá-los às jornadas pedagógicas ou mesmo às faculdades para falarem com o alunado das licenciaturas e mestrados de educação. Isso, e algumas leituras interessantes, poderiam ser um bom começo para experimentarmos novas maneiras de utilizar os vídeos para ensinar línguas, ainda que a legislação atual não tenha ajudado muito ultimamente.

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