Primeiro foi a geração de imagens no final do verão passado, pouco antes do Natal a geração de texto e na primavera a geração de áudio. Há meses que observamos com perplexidade o desenvolvimento vertiginoso das aplicações de IA, sem sabermos ainda até que ponto todo isto vai mudar o mundo. Já se tornou claro para nós que nada voltará a ser como antes, surgem dúvidas e receios… E nas escolas, institutos e faculdades, evitamos responder à pergunta que muitas pessoas já estão a fazer: será que a IA vai substituir o pessoal docente? Após vários meses a experimentar diferentes aplicações desta tecnologia, para mim torna-se cada vez mais claro que, polo menos para a aprendizagem de línguas, o professorado humano continuará a ser necessário… por agora. No entanto, as nossas funções, os materiais de aprendizagem que criaremos e proporemos nas aulas, as actividades ou as avaliações serão com certeza muito diferentes do que são agora.

IA e os chatbots vinhérom para ficar também no sector do ensino de línguas. Não tem volta. Esta tecnologia é tão disruptiva que afecta praticamente todas as competências: compreensão oral e escrita, redação, produção oral em monólogo ou mesmo em diálogo. Como se isso não bastasse, os modelos linguísticos da IA geram actividades gramaticais e de vocabulário, as chamadas actividades focus-on-form, como bolos quentes. E não se limitam a gerar texto, também falam com uma entoação quase humana, conversam connosco adoptando diferentes personalidades, simulam situações de comunicação, transcrevem o que dizemos, avaliam-nos, explicam-nos regras ou mesmo nos dão conselhos de estilo. E isto todo de forma gratuita e em qualquer dispositivo ligado à Internet.

Sem dúvida, os chatbots alimentados por IA podem oferecer inúmeros benefícios como práticas de conversação simuladas e situações comunicativas, mas eles não podem substituir a aprendizagem com seres humanos e a expertise do pessoal docente. Ainda que os chatbots podem oferecer uma experiência imersiva e interativa de aprendizado de idiomas, a comunicação humana é muito mais complexa e abrangente. Aspectos culturais, expressões idiomáticas, comunicação não-verbal, nuances de linguagem, mensagens implicitas e a capacidade de interpretar e responder adequadamente a todo isto são elementos que requerem a intervenção de professorado humano. Em relação à linguagem falada, as pronúncias erradas, os sotaques não nativos e a balbucia são ainda difíceis de interpretar polas máquinas. Por outro lado, a partir da sua observação na sala de aula, o professorado humano é capaz de fornecer um feedback personalizado e uma orientação direcionada, adaptando o ensino para atender às necessidades específicas de cada aprendente. De facto, a evidência científica não deixa dúvidas: apesar de a aprendizagem de línguas assistida por computador oferecer grandes benefícios, a experiência de aprender a falar uma língua com outros seres humanos é muito mais significativa e motivadora para pessoas de todas as idades. Afinal de contas, aprendemos línguas para falar com pessoas, não com máquinas. Portanto, a presença e o papel do professorado humano e de uma comunidade de prática continuam a ser essenciais para um aprendizado de idiomas abrangente e efetivo.

Mas para onde é que vamos então? No mínimo, para uma inclusão da IA na sala de aula de línguas que acontecerá mais cedo do que tarde. Se repararmos bem, isto pode não ser assim tão duro para o professorado de idiomas. Na realidade, o ensino das segundas línguas tem sido pioneiro na inclusão da tecnologia desde o final do século XIX: gramofones, fitas magnéticas, retroprojectores, cassetes de rádio, laboratórios de línguas, leitores de vídeo, leitores de CD, projectores de vídeo, computadores, pen drives, manuais em linha… o professorado de línguas conhecu e incluíu todos estes elementos nas suas aulas antes do pessoal docente de outros sectores da educação. E agora chega isto. Quase ninguém tem dúvidas já de que as ferramentas baseadas em IA, e muito especialmente os chatbots, serão um complemento indispensável para a aprendizagem de línguas, independentemente da metodologia utilizada polo professorado. As oportunidades de prática que oferecem, tanto dentro como fora da sala de aula, são ilimitadas. No entanto, estas ferramentas devem ser utilizadas conjuntamente com o ensino humano para garantir uma experiência de aprendizagem completa que englobe os elementos sociais, culturais e emocionais da comunicação.

Ainda assim, a tentação de utilizar ferramentas de IA exclusiva ou predominantemente para ensinar línguas é grande, especialmente para as empresas. A introdução desta tecnologia apenas com o propósito de minimizar custos, sem considerar a sua eficácia ou relevância, mesmo pode tornar ineficaz a aprendizagem de idiomas. Também a avaliação da competência numa língua, necessária para a seleção ou promoção de pessoal nas empresas. Estas avaliações de nível (A1, A2, B1, B2…) são mesmo uma condição para o acesso aos estudos universitários e à qualificação profissional. Ora, uma avaliação eficaz de todas as competências linguísticas exige pessoal específico e, portanto, dinheiro. Escusado será dizer que a utilização de ferramentas de IA iria reduzir consideravelmente os custos destes processos. É verdade que os chatbots com IA também já podem efetuar avaliações da proficiência linguística, especialmente em áreas quantificáveis como a utilização do vocabulário e a precisão gramatical. No entanto, a avaliação de competências complexas, como as culturais ou as pragmáticas, continua a ser um desafio para os chatbots. Assim, ainda que a IA consiga otimizar certos processos de avaliação linguística, é essencial procurar um equilíbrio e manter a presença de pessoal especializado no ensino e aprendizagem de línguas para garantir uma avaliação de nível verdadeiramente válida e eficaz.

Todo isto leva-me a pensar que, ainda que parece que não vamos ter muito tempo, é crucial abordarmos a integração da IA na educação com cautela sem deixar de priorizar as experiências de aprendizagem com pessoas, muito mais significativas e eficazes. Em todos os estabelecimentos de ensino, o corpo docente deveria ter margem de manobra não só para aprender a utilizar eficazmente as ferramentas de IA na sala de aula, mas também para aprender a desempenhar as funções que antes tangencialmente e agora fundamentalmente deve assumir: curadoria de conteúdo, geração de atividades, fornecimento de orientação personalizada e avaliação eficaz da competência. Talvez seja melhor ver as cousas polo lado positivo: poderemos dedicar-nos como nunca ao que é realmente importante no ensino, ou seja, acompanhar e orientar as pessoas nos seus processos de aprendizagem. Mas aqui também se coloca a questão do dinheiro e umas pergunta sque se tornarão cada vez mais pertinentes ao longo dos meses: quanto é que as sociedades e os seus governos estão dispostos a gastar no treinamento generalizado de docentes e na aquisição de licenças de software? Como evitarmos que a chegada da IA às salas de aula aumente o fosso das escolas públicas em relação a um ensino privado que já agora dispõe de mais recursos para se adaptar melhor a esta transformação?