Quase sem nos darmos conta, nas últimas décadas, aprender línguas passou de ser visto como uma forma de enriquecer a nossa cultura para se tornar quase uma obsessão económica. Esta transformação não aconteceu por acaso. Estamos perante uma mudança profunda na forma como encaramos a aprendizagem de línguas, e vale a pena percebermos o que está realmente em jogo.
Durante décadas, aprendemos línguas estrangeiras nas escolas como parte da nossa formação enquanto cidadãos. A língua era entendida como um bem público, uma janela para outras culturas, um direito que todos deviam ter. Mas algo mudou. Hoje, quando falamos de aprender inglês ou outra língua estrangeira, raramente pensamos em cultura ou comunicação intercultural. Pensamos em emprego, competitividade e curriculum vitae. Esta mudança de perspetiva tem um nome: a mercantilização da aprendizagem de línguas. E compreender este fenómeno é essencial para percebermos o mundo educativo em que vivemos.
A grande transformação: de direito a produto
Imaginemos que a língua é como uma casa de banho pública. Durante muito tempo, tratámo-la como uma infraestrutura básica, um direito ou uma comodidade que devia ser acessível a todos gratuitamente em espaços públicos. Mas gradualmente, começamos a vê-la como um serviço pago. Hoje, as casas de banho desaparecêrom dos parques e as ruas e temos de pagar para aceder a essa necessidade básica, muitas vezes consumindo num café ou usando serviços geridos por uma empresa privada.
Esta analogia um pouco escatológica ilustra bem o que aconteceu coas línguas nas últimas décadas. A visão neoliberal infiltrou-se no sistema educativo e redefiniu completamente o jogo. Já não se trata dum direito cultural que o Estado deve garantir a toda a cidadania. Trata-se dum investimento individual em “capital humano”, uma expressão que talvez tenhamos ouvido mas que merece ser explicada.
Quando falamos de capital humano, estamos a falar de nós próprios como se fôssemos uma empresa. As nossas competências são ativos, o nosso conhecimento é um investimento, e a nossa formação é como comprar maquinaria para aumentar a produtividade. Nesta lógica, aprender inglês não é diferente de comprar uma ferramenta profissional. É algo que fazemos por nós mesmos, para nós mesmos, porque isso vai aumentar o nosso valor no mercado de trabalho.
O problema é que esta transformação não é neutra. Quando a língua se torna um produto, quem não tem dinheiro para o comprar fica excluído. E quando os governos adoptam esta visão, deixam de ver a educação linguística como uma responsabilidade pública e passam a vê-la como algo que cada pessoa deve gerir individualmente.
Como os governos se tornárom vendedores
Pode parecer estranho, mas os próprios governos europeus tornárom-se, de certa forma, agentes de marketing do inglês. Tomemos o exemplo de Espanha, onde mesmo documentos oficiais descrevem o domínio do inglês não apenas como um recurso cultural, mas sobretudo como uma “oportunidade económica” ou mesmo um “pré-requisito” para o sucesso profissional.
Esta linguagem não é inocente. Ao enquadrarem o inglês desta forma, as instituições públicas estão essencialmente a criar ansiedade. Estão a dizer-nos: “Se não souberes inglês, não conseguirás trabalho. Se não investires nesta competência, vás ficar para trás.” É uma estratégia de marketing disfarçada de política educativa, e funciona porque toca nos nossos medos mais profundos sobre o futuro económico.
Mas a história não acaba aqui. Uma vez criada esta necessidade artificial mas poderosa, surge um mercado lucrativo para a satisfazer. Aparecem então as certificações internacionais, os exames padronizados, os diplomas reconhecidos que custam centenas de euros. Empresas privadas e fundações criam estes exames, definem os padrões de competência, e lucram coa ansiedade que foi cuidadosamente cultivada.
Resulta irónico que o certificado de inglês se torne, muitas vezes, mais importante do que saber realmente falar inglês. Conhecemos alguém que tem um diploma B2 mas que se atrapalha quando precisa de falar? Isto acontece porque o produto final não é a competência real, mas sim o papel que a certifica. E esse papel tem um preço que nem todos podem pagar.
Há ainda outra consequência grave desta mercantilização no ensino público. Quando os governos priorizam o inglês como ativo económico, as línguas minoritárias ou regionais ficam para trás. Na Galiza, como bem sabemos, as políticas de plurilinguismo acabárom por enfraquecer o galego nas escolas, porque os recursos fôrom canalizados para o inglês, considerado uma língua “mais rentável”. Esta tendência vê-se claramente no ensino superior. Na minha universidade é bom de ver que as medidas de promoção do uso de inglês nas aulas são mais numerosas e têm mais apoio por parte da reitoria do que as de promoção do galego.
O mercado privado: vendendo identidade e status
Se o setor público transformou a língua num requisito económico, o setor privado foi ainda mais longe: transformou-na num produto de luxo associado a identidade e status social. Basta com vermos os anúncios da EF Education First, ou da Wall Street English. Não vendem apenas aulas de inglês. Vendem um estilo de vida, uma imagem de sucesso, a promessa de fazer parte de uma elite global. O slogan “Boost your economic status” é explícito: comprar este curso é comprar uma posição social superior.
Esta estratégia funciona porque toca numa corda sensível da nossa sociedade. Vivemos num mundo onde a classe média está cada vez mais insegura sobre o futuro dos seus filhos. Os pais tornárom-se uma sorte de “empresários linguísticos”, investindo muito dinheiro em formações extra-escolares, cursos intensivos no estrangeiro e aplicações premium. Fam-no movidos polo medo de que, sem este investimento, os filhos fiquem para trás na corrida competitiva da globalização.
É aqui que a mercantilização se revela mais cruel, porque transforma a educação nisso, numa corrida competitiva. Se algumas famílias pagam milhares de euros em cursos premium, as outras sentem-se obrigadas a fazer o mesmo. A ansiedade alimenta o consumo, que gera mais ansiedade, que alimenta mais consumo.
A ilusão da democratização digital
Neste contexto, aplicações como o Duolingo surgírom como uma promessa revolucionária: aprendizagem de línguas gratuita e acessível para todo o mundo. Parecia que a tecnologia iria democratizar o acesso ao conhecimento. Mas quando olhamos com atenção, a história é mais complexa. O modelo “freemium” destas aplicações oferece acesso gratuito, mas apenas aos níveis básicos. Coa versão gratuita, conseguimos chegar a um nível A2, talvez B1. É suficiente para pedir um café em Londres ou entender o menu dum restaurante em Paris. Mas não é suficiente para trabalhar numa multinacional, negociar contratos ou fazer uma apresentação técnica.
As competências que realmente tenhem valor no mercado de trabalho, aquelas que constituem verdadeiro capital económico, estão reservadas para as versões pagas. As funcionalidades avançadas, o acompanhamento personalizado, a preparação para certificações profissionais – isso tudo custa dinheiro.
Assim, longe de eliminar as desigualdades, estas plataformas podem até perpetuá-las de forma mais subtil. Criam uma ilusão de igualdade de acesso enquanto mantenhem os verdadeiros recursos económicos reservados para quem pode pagar. É como oferecer entrada gratuita num ginásio mas cobrar depois por todos os equipamentos que realmente ajudam a ficar em forma.
Quem fica de fora?
O resultado final desta mercantilização é profundamente injusto. Muitos estudos mostram que o investimento privado em formação linguística é feito sobretudo por famílias de classe média e alta. São estas famílias que pagam escolas internacionais, intercâmbio de verão em países anglófonos, tutorias privados e cursos intensivos.
O conhecimento de línguas torna-se assim um marcador social, algo que distingue os que tivêrom recursos dos que não tivêrom. E isto não acontece apenas entre classes sociais, mas também entre países e territórios. Nem precisamos de ir muito longe. Dentro da própria União Europeia, a fratura é bastante evidente. Se olharmos para os rankings anuais de proficiência em inglês (como o EF English Proficiency Index, curiosamente publicado por uma das maiores empresas privadas do setor), vemos um padrão claro. Os países do Norte da Europa, como os Países Baixos, a Áustria, a Dinamarca ou a Suécia — que estão entre os mais ricos da UE — dominam os primeiros lugares globais. Em contraste, as grandes economias do Sul, como Espanha, Itália ou Grécia, ficam consistentemente para trás, muitas vezes na categoria de proficiência ‘moderada’. Aqui Portugal aparece como exceção da norma.
Recuperar a língua como direito
Então, o que fazer perante este cenário? O primeiro passo é tomar consciência do que está a acontecer. Perceber que quando nos dizem que o inglês é indispensável para o sucesso, alguém está a lucrar com esse discurso. Reconhecer que a ansiedade que chegamos a sentir não é natural, mas construída por interesses económicos.
O desafio que enfrentamos como sociedade é encontrar um equilíbrio. As línguas podem ter valor económico, isso é inegável no mundo globalizado em que vivemos. Mas não podem ser apenas isso. Precisamos de recuperar a visão da língua como direito cultural, como bem público, como algo que todas as pessoas devem poder aceder independentemente da sua capacidade económica.
Isto significa exigir que os governos voltem a investir seriamente no ensino público de línguas, que criem recursos de qualidade acessíveis a todos, que não deleguem em empresas privadas a definição do que é saber uma língua. Significa também proteger as línguas minoritárias e locais, reconhecendo que a diversidade linguística é uma riqueza que não se mede em euros ou dólares.
Enquanto cidadania, podemos começar por questionar a narrativa dominante. Aprender uma língua não tem de ser uma corrida angustiante. Pode ser, como sempre foi, uma forma de nos enriquecermos como pessoas, de entendermos outras formas de ver o mundo, de nos conectarmos com outras culturas. Essa dimensão humana da aprendizagem de línguas vale tanto ou mais do que qualquer certificado que possamos pendurar na parede.