Imagina por um momento um dicionário que nunca está completo, que cresce todos os dias e que é construído por milhares de pessoas ao redor do mundo. Não é ficção científica: é o Wiktionary, um projeto que mudou não apenas a forma como acedemos ao conhecimento linguístico, mas também como formamos as especialistas em lexicografia do futuro. Foi precisamente isto o que me levou a ser convidado para falar no Porto Meeting 2025, que reuniu no Porto e em Miranda do Douro representantes de comunidades linguísticas minoritárias, wikimedistas, investigadores, estudantes e promotores do desenvolvimento local, cum objetivo comum: fortalecer as línguas minoritárias a partir dos projetos Wikimedia.
O dicionário que nunca dorme
Lançado em 2002 pola Fundação Wikimedia, o Wiktionary é muito mais do que um dicionário tradicional. É um projeto colaborativo que reúne mais de 30 milhões de entradas em quase 200 idiomas, incluindo definições, etimologias, pronúncias, traduções e exemplos de uso. Ao contrário dos dicionários convencionais, criados por equipas fechadas de especialistas, o Wiktionary é construído por uma comunidade aberta de editores voluntários.
A edição em inglês, a maior de todas, conta com mais de 7,5 milhões de artigos, seguida polo francês com 4,7 milhões. Mas o que torna este projeto verdadeiramente fascinante é a sua capacidade de dar voz a línguas minoritárias e variedades linguísticas que raramente encontram espaço nos dicionários comerciais.
O caso do Galizionario
Um excelente exemplo disto tudo é o Galizionario, a edição galega do Wiktionary, criada em 2004. Cuma comunidade pequena mas extraordinariamente dedicada – apenas dous administradores gerem todo o projeto –, esta edição conta com mais de 88.000 artigos e uma nada desprezível média de 7,02 edições por página, demonstrando o cuidado e a atenção aos detalhes da sua comunidade.
O Galizionario não se limita a ser uma tradução ou adaptação doutras edições. Desenvolve conteúdos específicos da cultura galega, inclui toponímia local e estabelece ligações com outros projetos como a Galipedia. Trata-se de um expoente exemplar de como pequenas comunidades podem utilizar as ferramentas digitais para preservar e promover o seu património linguístico.

Quando a teoria vai ao encontro prática: o EMLex Wiktionary Hackfest
É precisamente neste contexto que surge uma iniciativa inovadora no campo da formação em lexicografia. O Mestrado Erasmus Mundus EMLex (European Master in Lexicography) é um diploma internacional que forma especialistas em lexicografia através dum consórcio de oito universidades europeias, desde Santiago de Compostela até Budapeste, passando por Roma e Lorraine.
Este mestrado, que combina teoria e prática de forma interdisciplinar, encontrou no Wiktionary uma ferramenta pedagógica excecional. Afinal, onde melhor formar futuras lexicógrafas do que num ambiente onde não só podem ver, senão sobretudo participar na construção colaborativa de dicionários reais?
Desde 2018, o Campus CREA da Universidade de Vigo, em Pontevedra, acolhe o EMLex Wiktionary Hackfest, um evento anual que mostra o potencial pedagógico da lexicografia colaborativa. Este “hackathon” lexicográfico reúne estudantes do mestrado EMLex, professorado e responsáveis pola edição do Wiktionary para uma jornada intensiva de criação e melhoria de conteúdos dicionarísticos.
O formato é simples mas eficaz: após palestras introdutórias sobre o funcionamento do Wiktionary, as pessoas participantes organizam-se em grupos de trabalho e mergulham na criação e edição de entradas. Criam novos artigos, adicionam pronúncias e etimologias, estabelecem ligações entre línguas e enriquecem entradas existentes com exemplos e fraseologia.
Ao longo de cinco edições – de “Edita ‘pa diante!” em 2018 a “Encontrármonos nos dicionários” em 2024 –, o evento não deixou de crescer em participantes, o que revela o interesse por esta abordagem pedagógica.
Mais do que técnica: uma nova forma de pensar a lexicografia
O que torna esta experiência verdadeiramente valiosa não são apenas as competências técnicas que o estudantado desenvolve. É a compreensão profunda de que a lexicografia moderna é, fundamentalmente, uma atividade colaborativa e intercultural.
Quem participa logo aprende que um dicionário não é um monumento intocável ao conhecimento linguístico, mas um organismo vivo que evolui constantemente. Descobre que cada língua tem as suas particularidades e que a diversidade linguística é um tesouro que merece ser preservado e celebrado.
Para o estudanrado da Faculdade de Ciências da Educação e do Desporto de Pontevedra, que participa ao lado dos estudantado do EMLex, o hackfest representa uma janela para o mundo da investigação linguística e uma oportunidade de contacto com colegas doutras culturas e países.
Os frutos da colaboração
Os benefícios desta abordagem são múltiplos. Para o Galizionario, cada hackfest representa um impulso significativo no seu crescimento, tanto em termos de quantidade de conteúdo como de qualidade técnica. Para o estudantado, é uma oportunidade única de aplicar conhecimentos teóricos num contexto real e de compreender as dinâmicas das comunidades de edição voluntária.
Mas talvez o mais importante seja a mudança de perspetiva que esta experiência proporciona. As futuras lexicógrafas aprendem que o seu trabalho não se fai no isolamento dum gabinete, mas em diálogo constante com comunidades de falantes, responsáveis de edição e outras pessoas especialistas.
Desafios e horizontes
Como qualquer projeto inovador, o hackfest enfrenta desafios. A sustentabilidade a longo prazo depende do apoio institucional continuado e da capacidade de envolver novas gerações de estudantes e pessoal investigador. Há também o desafio de expandir a iniciativa a outras universidades do consórcio EMLex, criando uma verdadeira rede de formação em lexicografia colaborativa.
Outro objetivo ambicioso é fortalecer as ligações com escolas e centros de normalização linguística, criando pontes entre a investigação académica e as necessidades reais das comunidades linguísticas.
Um novo paradigma
A experiência do EMLex Wiktionary Hackfest representa mais do que uma simples inovação pedagógica. É um exemplo de como as tecnologias digitais podem democratizar o acesso ao conhecimento e transformar a forma como pensamos a educação superior.
Num mundo cada vez mais interconectado, onde as fronteiras entre o digital e o físico se esvaem, iniciativas como esta mostram-nos que o futuro da lexicografia – e talvez da investigação em geral – passa pola colaboração aberta, pola interdisciplinaridade e polo diálogo entre diferentes comunidades de conhecimento.
Quando as próximas especialistas em lexicógrafia se sentarem para criar dicionários, levarão consigo não apenas conhecimentos técnicos, mas também uma compreensão profunda de que as palavras, como as pessoas, vivem melhor em comunidade. E talvez essa seja a lição mais valiosa de todas.