No outro dia, em Lugo, de forma inesperada, vivim uma experiência linguística que nunca vou esquecer: proferim o que acredito ser a primeira conferência em interlingua realizada na Galiza. Ainda que não seja um momento histórico de particular relevância para o meu país, foi certamente um acontecimento memorável para a história de interlingua. E aconteceu em Lugo, na Galiza.

O evento ocorreu durante as jornadas EL@N, organizadas polas minhas colegas de língua francesa no campus de Lugo da USC. A escolha de interlingua foi bastante peculiar e espontânea. Inicialmente, eu pretendia apresentar em galego, mas percebim rapidamente que uma parte significativa do público estrangeiro presente na sala não compreendia nem o galego nem o castelhano. As alternativas seriam inglês ou francês, mas estas também excluiriam parte do público locl que não dominava completamente esses idiomas.

Foi então que, num momento de improviso, a organizadora Martázul Busto sugeriu que utilizasse interlingua. Conhecedora do meu trabalho com esta língua nas redes sociais, encorajou-me. E assim, sem avisar previamente ninguém, iniciei a apresentação em interlingua, mantendo as diapositivas em galego. A maioria das perssoas presentes nem sequer percebeu que estava a ouvir uma língua construída, tendo acompanhado perfeitamente o conteúdo.

A minha conferência abordou temas de inteligência artificial e ensino de idiomas, destacando soluções para diferentes desafios educacionais. Neste contexto, interlingua não funcionou apenas como meio de comunicação, mas também como exemplo prático do seu grande potencial como alternativa ao inglês como língua auxiliar no ambiente académico ou na colaboração intercultural.

Um dos momentos mais memoráveis ocorreu no final da apresentação, quando um grupo de participantes se aproximou para partilhar as suas impressões. Durante a conversa, algumas pessoas debatiam entre si se eu tinha falado em castelhano, galego ou italiano. Comentárom que, em qualquer caso, a “língua” que tinham ouvido — fosse o meu galego, italiano ou castelhano — tinha sido perfeitamente compreendida. A surpresa surgiu quando revelei que, na verdade, não tinha falado nenguma dessas línguas, senão uma língua construída da qual nunca tinham ouvido falar e que nunca tinham estudado. Apesar disso, compreendêrom-na perfeitamente, mesmo numa conferência sobre um tema tão técnico como o uso de ferramentas de inteligência artificial para criar conteúdos de ensino de línguas.

Algumas pessoas expressárom o desejo de aprender mais sobre interlingua e sobre como poderiam usar esta língua nos seus próprios âmbitos profissionais e pessoais. Este interesse reforçou em mim a convicção de que o interlingua ainda pode ter um papel significativo no panorama linguístico contemporâneo. Sem dúvida, esta experiência foi uma lição valiosa sobre a força que a interlíngua tem como ferramenta de inclusão e compreensão mútua. Esse foi precisamente o principal objetivo com que esta língua auxiliar foi criada e desenvolvida no seio da International Auxiliary Language Association durante a primeira metade do século XX. Estou profundamente grato pola oportunidade de ter vivido esta experiência única e espero que esta iniciativa inspire outras pessoas a explorarem o potencial de interlíngua em contextos similares.