Juntamente com Ferrol, Pontevedra é uma das cidades galegas onde o galego é tradicionalmente menos falado, mas se considerarmos o seu município, toda a comarca que rodeia a Boa Vila, a situação é diferente. De facto, o vale do Baixo Lérez caracteriza-se por uma grande variedade linguística nos seus falares tradicionais. Por exemplo, só para a palavra hórreo existem cinco variantes diferentes e estamos a falar duma área de apenas 118 km2. Esta e outras surpreendentes descobertas surgírom durante a elaboração da minha tesina, uma espécie de dissertação de mestrado ou TFM, que no meu caso acabou por ser um trabalho de mais de 250 páginas. Após a publicação em papel deste trabalho em 2002 pola Deputação de Pontevedra, esta instituição disponibiliza-o agora no Atopo, o seu repositório de publicações em linha. Qualquer pessoa que o deseje pode agora aceder a este estudo.

Esta pesquisa foi realizada durante os meus cursos de doutoramento, entre 1996 e 1997, e abordou as principais características estruturais das variedades de galego faladas no vale do Baixo Lérez naquela altura. Trata-se dum estudo de campo geolinguístico em que percorrim de bicicleta as dezasseis paróquias rurais do concelho de Pontevedra, entrevistando falantes nativos e, inclusive, um informante no bairro histórico da Moureira. No entanto, não se trata duma monografia dialectológica tradicional. Este trabalho procura correlacionar dados dialetais e demolinguísticos das comunidades galegofalantes, dentro do quadro teórico de autores como William Mackey, Colin H. Williams, Roland Breton ou Peter Trudgill. De facto, com este trabalho, e coa tese de doutoramento que véu a seguir, procurei ultrapassar as fronteiras disciplinares para demonstrar que é necessário combinar abordagens analíticas geográficas e linguísticas para termos uma visão mais completa da relação entre processos de mudança linguística e dinâmicas territoriais.

Na realidade, este trabalho é apenas uma modesta iniciação à investigação e tem certamente muitas lacunas. Se hoje tem algum valor, é talvez devido aos seus mapas. São de minha própria elaboração, desenvolvidos em estreita colaboração co departamento de geografia da USC. Neles mostra-se a variação lexical, morfológica e fonológica no concelho de Pontevedra dos traços definitórios do galego das Rias Baixas.

Por esta razão, este trabalho oferece uma fotografia, talvez bastante atrapalhada, do galego tradicional falado no concelho de Pontevedra na segunda metade do século XX. Só espero que esta publicação online chegue a tempo de evitar que estas variedades caiam no esquecimento, precisamente agora que a maioria dos galegofalantes nativos do meu concelho ou já é idosa ou já faleceu. Guardo a memória de todas estas pessoas, as lembranças de todos os momentos divertidos que passei a entrevistá-las e o prazer da pequena grande aventura de percorrer todos aqueles caminhos num trabalho de campo emocionante.