“Não sei falar inglês, mas tampouco sei galego.” Esta poderia ser a frase que define uma geração inteira de jovens urbanos na Galiza, criados num sistema educativo que prometia o domínio de três línguas, mas que, segundo mostram os dados dos últimos anos, fica longe de alcançar os seus objetivos. Os números são alarmantes: mais de 70% da juventude galega não tem competências em inglês, enquanto um em cada três menores de 14 anos não sabe falar galego. O fracasso do plurilinguismo da era Feijoo é retumbante e está a nos custar muito caro.
E se não se tratasse apenas do galego?
Os dados recentemente publicados polo Instituto Galego de Estatística sobre o uso do galego tenhem gerado intenso debate, principalmente no que diz respeito à utilização da língua. No entanto, as críticas e os sinais de alarme parecem ter ignorado uma questão igualmente importante: os dados referentes à competência em galego, ou melhor dizendo, às competências no plural – compreensão oral e escrita, falar e escrever. E a verdade é que com menos competências em galego haverá menos neofalantes no futuro. Além disso, as vozes exaltadas de todos os lados, já habituais cada vez que os dados teimam em evidenciar a obsolescência do galego, não ampliam o seu foco para ver um contexto mais abrangente. Na verdade, os dados negativos do galego venhem acompanhados de resultados igualmente preocupantes para a língua inglesa, que foi considerada a menina dos olhos dos programas de plurilinguismo da Era Feijoo. Quando observamos o ensino das línguas em conjunto, talvez consigamos contextualizar melhor o que realmente está a acontecer co galego nas escolas.
É particularmente revelador que o inglês, uma língua de prestígio global indiscutível, mostre resultados de competência tão desastrosos entre a juventude galega quanto o galego, uma língua que continua a enfrentar atitudes negativas apesar das políticas de normalização implementadas desde os anos 80. Ainda que estes preconceitos persistentes contra o galego contribuam para as estatísticas atuais, os dados igualmente fracos de proficiência em inglês sugerem um problema sistémico mais profundo no ensino de línguas nas escolas galegas. Isto levanta uma questão crucial: não será também que estamos perante uma incapacidade para gerir bem o nosso repertório linguístico? Afinal, o estudantado galego tem acesso potencial a quatro das dez línguas mais faladas do mundo (galego-português, espanhol, inglês e francês), mas o nosso sistema educativo mostra-se incapaz de potenciar a aquisição de competências funcionais em qualquer língua que não seja o castelhano.
O que pedíamos e o que nos trouxérom
O atual sistema educativo plurilingue na Galiza impantou-se em 2010 cuma promessa ambiciosa: formar o alunado para que dominasse tanto as línguas cooficiais – galego e castelhano – como o inglês. Através dum modelo que incorpora disciplinas não linguísticas em inglês e uma distribuição supostamente equilibrada entre galego e castelhano, pretendia-se criar uma geração verdadeiramente plurilíngue. No entanto, os dados do Instituto Nacional de Estatística e do Instituto Galego de Estatística pintam hoje um panorama escuro, muito distante do prometido.
No caso do inglês, os números são especialmente preocupantes. Que mais de 70% da juventude galega declare não ter nenguma competência nesta língua, obrigatória desde a etapa pré-escolar, e que essa percentagem aumente até 74% no que diz respeito às competências de produção oral e escrita, evidencia um fracasso sistemático na implantação do modelo. Não estamos a falar de não atingir a excelência, mas sim de nem sequer conseguir as competências básicas após anos treze anos de estudo obrigatório.
A situação do galego não é melhor. O aumento de 5% nos últimos dez anos no número de jovens que não sabem falar galego é um dado alarmante. Mas o verdadeiramente preocupante está nas gerações mais novas: 32,44% dos menores de 14 anos não sabem falar galego e 38,30% não sabem escrevê-lo. Estes números do Instituto Galego de Estatística representam um retrocesso histórico na transmissão da língua própria da Galiza.
Um sonho roto
A promessa de um sistema plurilingue transforna-se agora em desilusão. Por um lado, temos uma administração educativa que, apesar de ter investido centos de milhões de euros no decénio anterior para implantar o seu modelo plurilingue, não parece dar fornecido os recursos básicos para garantir o seu sucesso. Em especial, falta uma formação específica para o professorado, que tende ainda a aplicar metodologias inadequadas, o que torna impossível implementar uma verdadeira imersão linguística em inglês ou galego na maioria dos estabelecimentos educativos. Por outro lado, a política linguística que trouxo o tão contestado Decreto de 2010 tem priorizado uma mal entendida “liberdade de escolha” em detrimento da necessidade de proteger e promover a língua galega.
Um dos resultados mais evidentes deste fracasso das políticas plurilingues neoliberais na Galiza é a crescente frustração que se sente tanto dentro como fora dos estabelecimentos de ensino. Professorado, alunado e famílias expressam a miúdo o seu descontentamento cum sistema que não consegue atingir os objetivos prometidos em nenguma das línguas alvo. Esta situação tem consequências graves a vários níveis para a nossa mocidade: por um lado, prejudica a sua competitividade num mercado laboral cada vez mais globalizado, onde o domínio do inglês é fundamental; pPor outro lado, e isto talvez seja ainda mais preocupante e doloroso, a alarmante diminuição do uso e dos conhecimentos do galego entre a mocidade não representa apenas uma perda de competências linguísticas, mas também um empobrecimento cultural e identitário. Além disso, o declínio do galego está a afastar a nossa juventude duma das maiores oportunidades que a nossa língua nos oferece: a possibilidade de integração natural no mundo lusófono, um espaço que abrange mais de 260 milhões de falantes e representa um enorme potencial em termos económicos, culturais e académicos. Em definitiva, estamos a comprometer seriamente a internacionalização da mocidade galega, talvez na pior altura possível, quando o mundo está mais conectado do que nunca e as oportunidades além-fronteiras são essenciais. Isto para além das muitas outras complicações que lhes estamos a deixar como herança num contexto global já de por si complexo e desafiante.
O que vamos fazer agora?
Reverter esta situação não vai ser fácil. Será necessário um compromisso claro e urgente coa reformulação do modelo plurilingue, um consenso que promova uma imersão linguística efetiva em galego já nos primeiros anos e introduza o inglês de forma gradual, mas bem desenhada e estruturada. Além disso, investimentos em formação do professorado, aprendizagem informal e programas de intercâmbio internacional são fundamentais para garantir uma formação de qualidade. Paralelamente, a revitalização do galego precisa ser uma prioridade, com iniciativas que promovam seu uso dentro e fora das aulas, bem como incentivos à criação real de conteúdos em galego, evitando aí perversões bem conheidas. Por fim, para garantir o sucesso deste plano, é essencial também avaliar constantemente os resultados e ajustar o modelo conforme necessário. Só assim, partindo do consenso social, da atualização pedagógica e dos investimentos estratégicos, poderemos aspirar a uma sociedade verdadeiramente plurilingue, onde a fluência em galego e inglês se torne a norma, e não a exceção.