Diz que falar da morte não é fácil, que pode até ser de mau gosto. No entanto, muito se tem escrito sobre este momento inevitável da nossa vida e da vida de qualquer ser vivo. A filosofia, a literatura, a sociologia, a psicologia e, claro, a biologia e a medicina fôrom algumas das muitas disciplinas que tenhem discutido este assunto delicado. Mas o que é que a linguística, e mais especificamente a gramática de valências, tem a dizer sobre a morte? É a esta pergunta que a minha colega e amiga da Universidade de Santiago de Compostela, Laura Pino, e eu tentamos responder num artigo que acabámos de publicar na revista Çédille: “Application d’une méthodologie d’analyse des prédicats nominaux: l’exemple du lexème MORT1“.

Com base na gramática das valências, Laura Pino e eu analisámos em pormenor o predicado do substantivo francês MORT1. Tem este pequeno número ao lado porque o vocábulo MORT é bem polissémico, ou seja, tem vários significados (‘assassínio’, ‘fim’, ‘colapso’, ‘avaria’ etc.). Nós concentramo-nos no significado essencial, o mais primário: ‘cessação da vida’. A partir daí, analisamos em detalhe os dous complementos imprescindíveis que componhem o predicado, ou seja, o contexto primário de MORT1, sem o qual não poderíamos compreender a palavra: o complemento ‘experienciador’ (quem ou o que morre) e o complemento causal (o que mata). Para isso, utilizamos uma metodologia de análise que desenvolvemos no âmbito de dous projectos de investigação paralelos MultiGenera e MultiComb, coordenados pola nossa colega da USC, a incombustível María José Domínguez, no âmbito do portal lexicográfico PORTLEX.

Portanto, não, nem a curiosidade mórbida nem a paixão polo oculto nos levárom a realizar esta investigação. Na verdade, o lexema MORT1 é um dos vinte substantivos que analisámos para os projetos do portal PORTLEX e serviu de pretexto para chamar a atenção para uma metodologia de análise sintático-semântica realmente eficaz que nos permitiu conhecer em pormenor a estrutura e o funcionamento interno dos predicados nominais em várias línguas. Finalmente, trabalhar co lexema MORT1 foi fechar um ciclo que abrimos em 2016 com aquele teste simpático que o PORTLEX realizou com este lexema e que, nem mais nem menos, nos levou a enfrentar e concluir os projetos MultiGenera e MultiComb.